O Espírito de Serendípite
Rogério Lacaz-Ruiz (Prof. Dr. de Metodologia Científica e Microbiologia
Zootécnica FZEA/USP)
Encontrar algo é uma coisa, encontrar algo que não se procura, é outra; é serendípite! O termo é usado repetidas vezes no meio científico e acadêmico, onde existem muitos exemplos de serendipidade, mas podemos, de modo oportuno, aplicá-lo a outras situações da vida. Ocorre serendípite quando encontramos uma palavra no dicionário, estando em busca de outra; quando, na livraria, achamos um livro de ética,
mas o que procurávamos era outro sobre computação.

Na vida acadêmica existem ocasiões múltiplas para viver a serendipidade. A rotina,
a boa rotina de trabalho, é uma delas. O cientista busca seus resultados e, para tanto, imagina uma hipótese de trabalho e o plano para confirmá-la. No desenvolvimento
do protocolo, se ele está atento, se exercita a serendipidade, pode descobrir muitas coisas que não eram objeto de busca. Se encontramos o que procuramos, diremos com Arquimedes: Eureka!, mas se encontramos o que não procurávamos, podemos dizer: Serendípite!

Definições de Serendípite:

Horace Walpole (1717-1797) - em carta datada de 28-1-1754 para Sir Horace Mann - relata que ficou impressionado com um conto de fadas que leu sobre “Os Três Principes de Serendip” (ou Serendib, o antigo nome do Ceilão, atual Sri Lanka),
que sempre faziam descobertas por acidente e sagacidade. Lentin (1996) comenta
a história dos príncipes, e a propositura para o novo termo, mas também descreve que Walpole foi traído por sua memória. O autor diz que as descobertas de Serendip, Serendib, e Sarendip nada devem ao acaso, e que resolviam os problemas e enigmas pelo poder de suas deduções. Ruiz (1997) comenta que os três príncipes foram chamados pelo pai no leito de morte. O rei queria deixar todo seu vasto reinado para os filhos e também dizer que havia um grande tesouro muito próximo da superfície. Logo após a morte do pai, os três filhos mobilizaram todos os homens do reinado para cavar e revolver a terra. Após vários anos de trabalho, nenhum tesouro
foi encontrado, mas a terra foi tão revolvida, que as colheitas foram as maiores
de toda a história do reino; serendípite em homenagem aos príncipes que procuravam o tesouro e encontraram colheita abundante. A sabedoria do rei, ao aconselhar
os filhos, pode ser definida, então, como serendipidade.

Exemplos de serendipidade:

As histórias da microbiologia, parasitologia, virologia, são similarmente marcadas
pela hábil exploração de observações aparentemente pouco plausíveis. A ciência moderna não deixa de ser uma crônica de descobertas serendipitosas. O escocês Alexander Fleming descobriu, em 1928, a penicilina. Um esporo contaminante
de Penicillium notatum adentrou sua placa de Petri contendo bactérias sensíveis
a penicilina. Qualquer microbiologista diria que a cultura estava contaminada, e que seria preciso repetir o experimento; Fleming, porém, graças à sua percepção, soube aproveitar essa aparente anomalia para descobrir o antibiótico. Talvez sua mente
e seus olhos já estivessem preparados pelo fenômeno de 1922, onde uma gota
de secreção nasal caiu na superfície do meio de cultura numa placa de Petri, e impediu o crescimento das bactérias por ação da lisozima presente no exsudato. Esta enzima descoberta na clara do ovo como agente anti-bacteriano pelo próprio Fleming,
em 1922, foi também encontrada posteriormente nas secreções nasais e lacrimais
dos animais. (Lacaz-Ruiz, 1992.)

A heparina foi descoberta por um estudante de medicina, que procurava, não
um anticoagulante natural, mas caracterizar um procoagulante natural.
O anticoagulante oral tem sua origem nas pesquisas na área animal, feita em bovino que morreu de hemorragia espontânea após ingestão de trevo doce deteriorado.
Os sucrilhos ou corn-flakes surgem de um esquecimento do milho em um forno acesso durante todo um dia, por parte dos irmãos Kellog, no ano de 1898. Continuamos a encontrar a atividade de pessoas serendipitosas em dezenas
de instâncias fora da área biológica, alguns mundialmente comercializados: a borracha vulcanizada surge quando Charles Goodyear, em 1844, deixa cair um pedaço
de borracha escolar, dentro de uma frigideira quente; o corante índigo, em 1893, quando um químico quebra o termômetro dentro de uma solução e reage com
o mercúrio; o náilon, em 1939; o polietileno, em 1935, graças a um vazamento
no laboratório.
Encontrar algo é uma coisa. Encontrar algo que não se procurava, é outra:
é serendípite. O álbum que estréia a carreira solo do guitarrista gaúcho Evandro Demari tem este nome: Serendip. Saiba mais.
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